Historieta Rock'n Roll

Maldito para muitos, entretenimento para outros, besteira para tantos, empobrecimento da música para alguns, a manifestação última do capitalismo para os marxistas e liberdade de inventar para os que o amam. Assim nasceu, reproduziu e morreu por diversas vezes esse tal rock’n roll que sempre teima em voltar do além. Às vezes, retornam tal como foi embora.
O espírito libertário e revolucionário do rock’n roll, mais característico da segunda metade dos anos 60, influenciou minha leitura da primeira morte do rock’n roll. Não creio que Elvis, Jerry Lee, , Berry, Cocrhan, Vincent portassem, em seus pensamentos, ideais mais consistentes do que o sucesso e a intenção de comer muitas mulheres. Não havia uma causa a animar esta música. Pelo menos, não havia como houve em John Lennon, Brian Jones, Joan Baez, Bob Dylan, Jerry Garcia e etc.

O sentido transformador que a nova música trouxe, ao nascer, e que desagradou o establishment e que este tratou de pasteurizar, aconteceu apesar dos requebros do Elvis, da fúria do Little Richard. Foi, se puder convencer, na verdade, um fenômeno que a cultura do pós-guerra produziu. Pequenos detalhes na cultura desta época - desde o existencialismo de Sartre à literatura de Kerouc e Corso até os negros mortos nos campos de batalha europeus, passando pela experiência social soviética - mexeram com a consciência do mundo e com a consciência jeca, cínica e preconceituosa dos norte-americanos.
Nesta onda, o rock’n roll surfou. Nesta onda, o novo ritmo veio musicar a adolescência nascente. A adolescência aí recebeu a adição de características que a diferenciaram de qualquer outra época da história ocidental. Esta fase imprecisa da vida tornou-se mais prolongada e marcada por uma certa imbecilização justificada por pais e educadores.
Em suma, o sentido transformador do rock’n roll em seus primórdios foi pavimentar, junto ao cinema e à televisão, o caminho para o estabelecimento de uma diferença entre o jovem, a criança e o adulto. Começar a constituir o tal conflito de gerações que, certamente, não teve similar na história da cultura. Não que essa expressão estivesse ausente dos relatos, bem como a expressão "a luta do velho contra o novo". A literatura, e as tendências estéticas que a animaram, revela com clareza o que digo. Que a geração realista tenha desenvolvido uma estética que se conflitou com a da geração simbolista é fato. Que os poetas simbolistas eram mais jovens do que os realistas é uma obviedade. Tal diferença estética pode merecer a denominação de "um conflito de gerações". Todavia, uma descrição a anos-luz do conflito de gerações a partir dos anos 50.

Neste último, que contou com o rock’n roll em um vértice, tratava-se, sim, de diferenças estéticas, morais e ideológicas, mas não em debates culturais, acadêmicos ou literários. Os debates passaram a ocupar cada lar, cada laço entre os mais velhos e os mais jovens. O direito a divergir estava estabelecido. Mesmo que Berry, Presley ou Cochram nada soubessem a este respeito e apenas queriam se divertir.
Se pareciam rebeldes, se rebeldes efetivamente fossem, a rebeldia, certamente, não tinha uma causa.
Junior Bubys

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